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VERSO
VOZ

23.12.10

Minha história de amor com a noite

          Fechar os olhos é doce.
          O dia não é mistério, não para a criança que fui. A noite sempre teria a devoção dos meus olhos. Verdadeira por não ser exata, porém certamente imensa.
            Foi nessa imensidão que me perdi desde que primeiramente vi o céu estrelado.
        Sinto falta de deitar-me no chão com o binóculo do meu pai. Mais que um mero objeto de observação, transportava-me para um lugar sem tristeza, sem amor ou dor de amor. Na noite, as preocupações eram outras e se podia observar o mundo por fora.
          Eu fugia para o céu querendo esquecer as dores.
          Compreensiva e suave, a noite cura e consola. Mas não olhe para a Lua. Ela nunca se apieda de quem está só. É mero lembrete de que o dia está lá, do outro lado. Astro sem luz própria. Reflete o Sol na sua falta de essência e faz-se ponto de fuga para fora da realidade. É uma linda mentira.
         Depois que aprendi a lidar com a Lua, a noite tornou-se minha melhor amiga. Todos os meus segredos ficavam lá, perdiam-se naquela vasta eternidade. A noite é o clímax do dia, que se prepara inteiro para ela. Eu fazia o mesmo.
         Certo dia, encontrei a noite em olhos negros como ela. Brilhantes! Ela não estava impregnada como está em mim, estava contida neles: inexata e imensa. Foi nessa imensidão que me encontrei. Pela primeira vez não precisei do binóculo. Eu encontrava felicidade e amor - amor! - na noite. Então aqueles olhos ganharam a devoção dos meus, assim como todos os meus sentidos.
         Fechar os olhos é doce, mas a noite não está em meus olhos. Aqueles olhos foram meus por apenas alguns momentos. Eram tão brilhantes, devia ser o luar. A noite estava naqueles olhos, mas o amor só estava nos meus.
         A noite cura, consola e descansa, embora eu esteja fadada à memória. Quero que meus últimos momentos sejam olhando para o céu estrelado.
        Fechar os olhos é doce.